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quinta-feira, 3 de outubro de 2013

A recuperação do rico

Paul Krugman

Poucos dias atrás, o "New York Times" publicou uma reportagem sobre uma sociedade que está sendo minada pela extrema desigualdade. Essa sociedade alega recompensar os melhores e mais brilhantes, independentemente do histórico familiar. Na prática, entretanto, os filhos dos ricos se beneficiam de oportunidades e contatos não disponíveis para os filhos de classe média e trabalhadora. E ficou claro a partir do artigo que a desigualdade entre a ideologia de meritocracia da sociedade e sua realidade cada vez mais oligárquica está surtindo um efeito profundamente desmoralizante. 

A reportagem ilustrou de modo sucinto o motivo da extrema desigualdade ser destrutiva, por que soam vazias as alegações de que a desigualdade de renda não importa desde que haja igualdade de oportunidade. Se os ricos são tão mais ricos do que o restante a ponto de viverem em um universo social e material diferente, esse simples fato transforma em tolice qualquer noção de oportunidade igual. 

A propósito, de que sociedade estamos falando? A resposta é: a Escola de Administração e Negócios de Harvard, uma instituição de elite, mas que agora é caracterizada por profunda divisão interna entre estudantes comuns e estudantes de famílias ricas. 

O fato, é claro, é que o que acontece na escola também acontece nos Estados Unidos --um fato apontado pelos dados mais recentes sobre as rendas dos contribuintes.

Os dados em questão foram compilados ao longo da última década pelos economistas Thomas Pikett e Emmanuel Saez, que usaram números da Receita Federal para estimar a concentração de renda nos Estados Unidos. Segundo a estimativa deles, as fatias superiores de renda receberam um golpe durante a Grande Recessão, à medida que coisas como ganhos de capital e bônus de Wall Street secaram temporariamente. Mas os ricos se recuperaram, a ponto de 95% dos ganhos da recuperação econômica desde 2009 terem ido para o famoso 1%. Na verdade, mais de 60% dos ganhos foram destinados ao 0,1% superior, pessoas com rendas anuais superiores a US$ 1,9 milhão. 

Basicamente, enquanto a grande maioria dos americanos ainda vive em uma economia deprimida, os ricos recuperaram quase todas as suas perdas e estão avançando ainda mais. 

Um aparte: esses números deveriam (mas provavelmente não vão) finalmente matar as alegações de que a crescente desigualdade envolve apenas os mais bem educados se saindo melhor do que aqueles com menor formação. Apenas uma pequena fração daqueles com formação universitária chega ao círculo encantado do 1%. Enquanto isso, muitos, até mesmo a maioria, dos jovens com ensino superior estão tendo muitas dificuldades. Eles têm diplomas, frequentemente obtidos por alto endividamento, mas muitos permanecem desempregados ou subempregados, enquanto muitos se veem em empregos que não utilizam sua educação cara. O sujeito com diploma universitário servindo café no Starbucks é um clichê, mas ele reflete uma situação muito real. 

E o que está provocando esses ganhos imensos de renda no topo? Há um debate intenso a respeito, com alguns economistas ainda alegando que rendas incrivelmente altas refletem contribuições comparavelmente incríveis à economia. Eu acho que vale notar que grande parte dessas rendas superaltas vêm do setor financeiro, que é, como você pode lembrar, o setor que os contribuintes tiveram que resgatar após seu colapso iminente ter ameaçado levar consigo toda a economia. 

De qualquer modo, seja lá o que estiver causando essa crescente concentração de renda no topo, o efeito dessa concentração está minando todos os valores que definem os Estados Unidos. Ano a ano, nós estamos nos afastando de nossos ideais. Privilégio herdado está acabando com a igualdade de oportunidade; o poder do dinheiro está acabando com a eficácia da democracia. 

E o que pode ser feito? Por ora, o tipo de transformação que ocorreu sob o New Deal --uma transformação que criou uma sociedade de classe média, não apenas por meio de programas de governo, mas aumentando enormemente o poder de barganha dos trabalhadores-- parece politicamente fora de alcance. Mas isso não significa que devemos desistir de passos menores, iniciativas que nivelem ao menos um pouco o campo de jogo. 

Veja, por exemplo, a proposta de Bill de Blasio, que ficou em primeiro nas primárias democratas de terça-feira e provavelmente será o próximo prefeito de Nova York, de fornecer ensino pré-escolar universal, pago com uma pequena sobretaxa sobre aqueles com rendas acima de US$ 500 mil. Os suspeitos habituais, é claro, estão gritando e falando sobre seus sentimentos feridos; eles têm feito muito disso nos últimos anos, mesmo quando fazem papéis de bandidos. Mas certamente isso é exatamente o tipo de coisa que deveríamos fazer: taxando a riqueza dos cada vez mais ricos, ao menos um pouco, para expandir as oportunidades para os filhos dos menos afortunados. 

Alguns comentaristas já estão sugerindo que a ascensão inesperada de De Blasio é o início de um novo populismo econômico, que sacudirá todo nosso sistema político. Isso parece prematuro, mas espero que estejam certos. Pois a desigualdade extrema ainda está crescendo --e está envenenando nossa sociedade. 

(Tradutor: George El Khouri Andolfato.Noticias.uol.com.br)

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