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quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Desenvolvimento - acumulação destrutiva ou progresso em equilíbrio?



O que se pode chamar de economia internacional foi tomando forma com as grandes navegações, isto é, com a expansão comercial, viabilizada pela utilização de um tipo de embarcação capaz de atravessar os oceanos – a caravela -, ademais equipada com armas de fogo, produzidas na Europa com a pólvora inventada na China, onde era usada para fogos de artifício.  É a partir da utilização desse meio de destruição que se irá firmando o poder de nações que o detinham, num processo circular de aumento de meios de destruição e aumento de poder, em crescendo até a atualidade.  Até então os países europeus eram bem menos sofisticados que os do Oriente, mas a partir dessa concentração de poder, assim alcançada, se forma também o mito da superioridade racial européia, isto é, branca.

            O crescimento da produção para comércio [este assunto é introduzido sem ter sido anunciado ou contextualizado antes] vai mudando a lógica do processo de produção, antes orientado por uma perspectiva de atendimento das necessidades do consumo e portanto limitado pela saciedade dessas necessidades.  Com a produção para o comércio, a lógica é a do aumento do lucro por ele proporcionado, não tendo esses limites portanto, em outro processo que vem num crescendo até hoje.  Se a lógica passou a ser produzir cada vez mais, então o homem vai utilizar sua inteligência para a invenção de aparatos que aumentem a capacidade de produção, que são as máquinas, com o que se vai ingressando na fase industrial.  Assim, a expansão  comercial gerou a expansão industrial, como no passado o interesse crescente na Europa por trazer produtos finos do Oriente induziu a formação de empreendimentos comerciais, cujo poder crescente os conduziu a posição hegemônica.


            Na verdade, o crescimento da produção industrial que se seguiu tem também seus limites, que são as disponibilidades de recursos naturais para alimentá-lo, do que já tinham consciência os autores clássicos britânicos, todos eles.  Malthus com sua conhecida posição quanto à carência alimentar, mas Smith, Ricardo e Stuart Mill foram explícitos quanto à impossibilidade da Inglaterra continuar seu crescimento industrial com base em sua própria disponibilidade em recursos naturais.  Smith já tinha entrevisto, no entanto, e Ricardo especificou e completou, a proposta de solução via especialização internacional da produção, no quadro geral do liberalismo econômico, o pilar central do ideário dos clássicos.  Através da aceitação da lei das vantagens comparativas, as nações se foram especializando naquilo para o que tinham melhores condições para oferecer às trocas internacionais, isto é, os países industriais em bens industriais, os demais como fornecedores de matérias primas, outro sistema que vigora até a atualidade.

            Dir-se-ia que já não é bem assim, pois os exportadores de matérias primas também já estão se industrializando.  No entanto, a maior parte do capital utilizado nessa produção industrial provem das potências industriais, capital atraído a esses países pela ampla disponibilidade de mão-de-obra barata, recursos naturais disponibilizados a custo quase zero,  abundância de fontes de energia e favores governamentais, por governos empenhados “no desenvolvimento”, isto é, no crescimento  a qualquer custo,  Assim sendo, segue a exportação de recursos naturais e esforço de trabalho a baixos preços, agora embutidos nos bens industriais exportados, sendo os lucros maiormente remetidos para os países de origem do capital.  Esse novo perfil do processo vai no entanto gerando importantes transformações.

             Forma-se crescentemente mão-de-obra qualificada e capacidade gerencial nos países que abrigam esse tipo de industrialização, assim como se filtra para a economia local considerável quantidade de renda, com resultante aumento do potencial de mercado e seus efeitos multiplicadores.  Mas se acelera aí a exploração predatória de recursos naturais e a conseqüente deterioração ambiental.  A ser incorporado ao cálculo econômico o valor dos recursos naturais apropriados na produção, o resultado seria provavelmente o de que o valor da descapitalização natural supera a capitalização material, isto é, com sua ilusão desenvolvimentista esse países estão provavelmente descapitalizando, o que compromete as possibilidades de que venham a alcançar no futuro condições de bem estar para a maioria de suas populações, mantidas no passado e no presente em condições precárias de vida, problema que pode ser momentaneamente atenuado, mas não resolvido, com assistencialismo.  Ademais, as regras impostas por organizações internacionais, ou pelo Consenso de Washington, vedam a adoção por esses países de medidas protecionistas, as quais foram o motor do desenvolvimento de todas as nações industriais, sem exceção, e continuam sendo por elas adotadas.  É bem conhecida a posição de Hamilton nos Estados Unidos, Meiji no Japão, List e Bismarck na Alemanha, e outros, todos promotores do protecionismo, que  conduziu seus países a posições privilegiadas.  A adoção de medidas protecionistas pelos países exportadores de matérias primas enfrenta porém na atualidade forte oposição.

            Nos países industriais, a migração de milhares de indústrias para países exportadores de matérias primas gerou altas taxas de desemprego, enquanto o fato de que as empresas que migraram exportam de volta aos países industriais, incluso para os de sua origem, grandes quantidades de produtos a baixos preços gera nesses países avultados déficits comerciais. Desemprego e déficits comerciais se constituem em uma parte importante das causas da situação de crise em que se encontram esses países. Essa migração de indústrias também vai acentuando uma tendência para que as potências industriais tenham seu perfil de investimentos deslocado para os serviços e para o setor financeiro, aliás curiosamente de acordo com o proposto em 1972  pelo Limits to Growth, do Clube de Roma.  Esse crescimento do setor financeiro, por sua vez, ao expandir-se exageradamente, abarcando de forma crescente áreas de risco, acabou, pela alta inadimplência, gerando a outra parte da crise que acomete as nações industriais no presente.

            O processo de acumulação padece de compulsão ao crescimento, não apenas pela busca incessante do lucro, mas também porque ele não se coaduna com a estabilização.  A industrialização gerou o setor de produção de bens de capital, que praticamente não existia na economia de base agrária. As crises de então estavam ligadas a condições climáticas – os anos de “vacas gordas” e de “vacas magras” das escrituras. Na economia industrial as crises passam a ser parte do processo.  O setor de bens de capital produz para repor a capacidade instalada e para atender ao aumento da produção.  Se a economia cresce a taxas constantes o setor de bens de capital se estabiliza.  Mas se houver uma redução na taxa de crescimento, o setor de bens de capital já entra em retração, gerando ali desemprego, cujos efeitos repercutem nos demais setores, pela redução da renda correspondente a esse desemprego, podendo gerar então mais redução da taxa de crescimento, avançando a gestação da crise.  As crises são portanto inerentes à economia industrial.,  Para evitá-las é preciso crescer sempre, o que tem um pouco a ver com o recurso a guerras, cuja ocorrência tem uma certa correlação com momentos de arrefecimento do crescimento econômico, sendo de ser levado em conta que a produção de armamentos provém do mesmo setor que produz bens de capital.

            O crescimento constante da produção industrial, bem como portanto  da atividade comercial decorrente, vai demandando  também crescimento constante dos meios de pagamento, o que por sua vez vai inviabilizando que as moedas continuem lastreadas em ouro.  O abandono do padrão ouro conduziu no entanto a crescente instabilidade monetário-financeira, que atingiu seu máximo no período de entre guerras mundiais.  A fim de criar mecanismos para evitar a repetição do caos dos anos 30, reuniu-se ao final da segunda guerra a conferência de Bretton Woods, na qual, além da criação do FMI e do Banco Mundial, decidiu-se pela adoção do sistema misto de pagamentos internacionais dólar-ouro, uma vez que o dólar era a única moeda ainda conversível em ouro.  Esse sistema funcionou relativamente bem.  Mas em 1971 os Estados Unidos abandonaram o padrão ouro e o dólar passou a ser apenas papel-moeda.  Nessa condições, impunha-se a criação de uma moeda internacional, que poderia ser emitida, por exemplo, pelo FMI, mas não foi o que aconteceu, e o dólar papel se manteve como meio de pagamento internacional, passando a crescer sem peias todo o setor financeiro.  Uma moeda sem nenhum valor intrínseco é tratada como um bem comerciável, como uma mercadoria, cujo preço é o juro, passando a sofrer as flutuações próprias do mercado, como também passando a ser objeto de todo tipo de especulações.  O preço de uma moeda estrangeira, que é o câmbio, também entra no processo especulativo, e bem assim as ações de empresas, os títulos de dívidas públicas e privadas, as hipotecas de imóveis e toda uma série de outros títulos, tudo com valores flutuando ao sabor da especulação financeira, valores por sua vez referidos a papel sem lastro.  O mundo ingressou assim na etapa delirante das especulações financeiras, na hegemonia dos bancos e/ou especuladores.  Os governos, atolados em dívidas, cortam gastos sociais e aumentam impostos para pagar juros, o que recai sobre produtores e trabalhadores, por sua vez também colhidos na engrenagem do endividamento, e portanto pagando juros ao setor financeiro.  Na atualidade o endividamento já é geral, colhendo os governos, passando pelas empresas e indo até as pessoas.  A interrupção da concessão de créditos agora deixaria a maioria dos devedores sem condições de pagar suas dívidas. Seria a ruína imediata de todo o sistema. De qualquer forma - como já comentado - a expansão contínua do crédito adentrou áreas de risco, onde a inadimplência resulta ser alta.  Há ademais diversos países que já interromperam o pagamento de suas dívidas externas.  Os que não o fizeram, e adotam cortes orçamentários e aumento de impostos para seguir pagando os juros da dívida, enquanto fazem transferências massivas de recursos para bancos, estão com freqüência enfrentando manifestações de protesto.

            O processo secular de acumulação, que culminou nesta sua fase financeira, sem ter abandonado mecanismos de acumulação das fases anteriores, inclusive a violência destrutiva, dá mostras agora de que se encaminha para sua saturação terminal.  O contínuo crescimento desse processo de acumulação, por se aproximar de seus limites em nível mundial, gerou a crise generalizada atual, com seus aspectos ambientais, sociais, econômicos e financeiros, para os quais não há soluções isoladas.  As soluções serão viabilizadas na medida em que se reverta o processo de acumulação a um processo de redistribuição, em direção ao equilíbrio. O progresso em equilíbrio poderá ser levado ao futuro e poderá ser levado a todos, isto é, será sustentável e generalizável.
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segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

P2 – Colonialismo, imperialismo, belicismo e uso da mão de obra


A economia estabelecida durante o sistema colonial baseou-se mormente na utlização de mão de obra escrava na produção de produtos agrícolas, ou extrativos, para exportação aos, ou via os, países metropolitanos.  Internamente aos países dominados o sistema favoreceu a formação de elites, em geral de brancos, as quais geriam o sistema localmente, ao mesmo tempo em que utilizavam as receitas auferidas na aquisição de produtos finos provenientes dos países dominadores, ou iam aí gastar, como também enviavam seus filhos para cursar universidades. Eram elites geradas e mantidas, até hoje, em comunhão de interesses com os países dominadores, opondo-se sempre politicamente a tentativas de emancipação nas colônias, ou nos países aparentemente indepedentes de hoje. Mas não só com esse modelo se deu a ocupação do território nas colônias.
 Esse modelo prevaleceu onde as condições de solo e clima eram propícias a produções não existentes nas metrópoles, do contrário o custo do transporte a longa distância inviabilizaria a colocação da produção local nos mercados das metrópoles. Isso condicionou a criação nas colônias de extensas culturas de produtos tropicais, como açucar, cacau, café, algodão, tabaco e outros. Já nas áreas de condições semelhantes às das metróploles , como não foi possível ali implantar atividades exportadoras, a terra ficou disponível para que aí se alojassem famílias que haviam sido expulsas da terra, para aprodução de matérias primas para a atividade industrial em expansão, o que gerara condições sociais calamitosas em países europeus, como foi o caso da ocupação da terra na Inglaterra para a criação de ovelhas, fornecedora de lã para as tecelagens. Essas famílias, que chegaram aos milhões, foram ocupando a terra disponível e passaram a produzir para si próprios, ou para os mercados locais, reproduzindo os padrões de seus países de origem. Foi o caso do norte das provícias da Inglaterra e da França na América do Norte, e de todo o Cone Sul na América do Sul, incluindo o sul do Brasil. 
Esses dois tipos de ocupação do território tiveram desenvolvimentos opostos. Os dedicados à exportação mantiveram-se como tal até hoje, tendo substituido a escravidão por exploração brutal da mão-de-obra, geradora de miséria e ignorância. Os que produziam para si próprios, livres da dominação por latifundiários, prosperaram rapidamente, terminando por gerar condições para sua própria industrialização. Mas essa nova indústria necessitava também de matérias primas, razão pela qual as áreas industriais lideraram os processos de independência nesses países, passando as suas áreas exportadoas a abastecera indústria local, em algo se assemelhava a colônias internas. Mas havia os interessses de exportadorews nessas áreas dominadas internamete, os quais resistiram ao poder dos industriais locais, mas foram derrotados, Foi o caso da Guerra Norte-Sul nos Estados Unidos e da revolução de 1930 no Brasil, setenta anos depois da guerra civil americana.
A propósito, o domínio industrial se consolidou em nível mundial. Hoje a economia rural é um segmento da economia industrial, recebendo da indústria equipamentos e insumos e entregando seus produtos para processamento industrial, seja no próprio país ou além fronteiras. A mão-de-obra, que transitara da agricultura para a indústria, vai agora sendo daí também desalojada, pela evolução tecnológica que, em vez de priorizar, como deveria ter feito, a economia de matérias primas, priorizou a economia de mão- de-obra, gerando assim a crise social do desemprego em nível local e a crise ambiental decorrente da contínua corrida aos recursos naturais.
O desemprego nas áreas imediatas à mecanizaçao vai gerar a migração para as cidades e portanto também o problema da marginalidade urbana, que por sua vez transborda para a migração internacional, para as nações industriais, onde o envelhecimento da populaçao requer a importação de mão-de-obra jovem, para financiar gastos previdenciários crescentes. Mas por outro lado é a própria indústria que migra desses países industriais para os países de baixos salários, fechando assim grande número de empregos nos países industriais tradicionais, pelo que a população culpa os trabalhadores imigrantes. Além de perderem grande número de indústrias com esse processo, esses países exportadores de indústrias recebem uma avalenche de produtos a baixos preços, provenietes dos novos países industriais. O caso da China é o mais expressivo..Os países ainda ricos enfrentam agora portanto uma grave crise devido a esses dois fatores, mas se pretende que superem essa crise cortando gastos públicos, o que incide fortemente sobre os gastos sociais, agravando a crise.
Na verdade o poder econômico-financeiro não tem pátria, é de âmbito mundial, e seus interesses se sobrepõem a interesses nacionais.  Os detentores desse poder se orientam por uma lógica própria, superior e insensível aos dramas dos “comuns”. A esse nível os problemas são dois: os recursos naturais estão em contagem regressiva para esgotamento, a se manter a corrida atual a esses recursos, mas a manutenção do sistema de poder requer o crescimento contínuo, necessário para manter o setor de bens de produção, característico da economia industrial. Esse setor precisa crescer sempre. A simples diminuição de sua taxa de crescimento provoca uma retração nesse setor, que se propaga aos demais. Mas há um número enorme e crescente de pessoas clamamdo pela utilização de recursos naturais para sua sobrevivência, o que agrava o estrangulameto do processo e gera reações políticas crescentes contra o próprio sistema de poder. Que recomenda então a lógica “superior e insensível”? A diminuição da população, pois o que interessa é que cresça o número de pessoas que podem comprar, e não o número de pessoas que apenas querem sobreviver, que são a maioria. A diminuição das taxas de natalidade decorreria naturalmente da elevação do nível cultural das massas desfavorecidas, Mas como essa elevação cultual não interessa por razões políticas, pois traria consigo a elevação do nível de consciência, recorre-se a métodos diretos para diminuir a população. É essa a terrível ameaça que paira sobre as cabeças de todos nós. Já se pode perceber a ação do grande poder nesse sentido. Aí está o belicismo a massacrar populações, e com o uso de armas concebidas para isso, para massacrar grande número de pessoas. Aí está a interminável série de conflitos internos provocados pela infiltração de mercenários. Aí estão os efeitos mortíferos do “terrorismo da Al Qaeda”, uma entidade fantoche criada para isso. Aí está a insensibilidade quanto às mortes massivas pela fome. Aí está um número crescente de enfermidades suspeitas de serem provocadas. Aí estão os muitas espécies de drogas, perseguidas no varejo mas protegidas no atacado. Aí está a ampla promoção do homossexualismoque deve ser respeitado como opção pessoal, mas cuja ampla promoção pelos meios de comunicação, até mesmo em escolas, é indevida.

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P1 – Por que desenvolvimento generalizável?


Por que desenvolvimento generalizável? Porque não interessa um desenvolvimento que não possa ser levado a todos. Ainda que a mídia e boa parte da academocracia insistam na idéia de que a elevação dos padrões materiais de vida para alguns acabará irradiando benefícios para os demais (a teoria do trickle down), a verdade é que o enriquecimento de alguns se faz à custa dos demais, o que é válido em termos de pessoas, de cidade e campo, de regiões ou de países.
Assim se deu todo o processo de desenvolvimento ao longo da história – tirando de muitos para beneficiar a poucos. Essa foi a motivação do colonialismo, do imperialismo e do belicismo atual, O colonialismo propiciou a riqueza dos países europeus, o imperialismo consolidou as vantagens dos países industriais, o belicismo atual é um esforço extremo para preservar essas vantagens, já agora em termos de grandes conglomerados empresariais, não importa por que meios, e não importa com que consequências.
O que tem sido entendido como desenvolvimento é um processo de acumulação, da qual acumulação há beneficiários e tributários. As cidades não se manteriam se não houvesse apropriação a baixos preços de trabalho e recursos naturais provindos do campo. As classes abastadas, beneficiárias do processo, não se manteriam se não houvesse tributários com níveis de renda mais baixos produzindo os produtos consumidos por elas. Os países beneficiários não o seriam se não houvesse os países tributários. Riqueza e pobreza são obviamente as duas faces de uma mesma moeda, embora sofisticadas teorias econômicas procurem negar isso.
Esse processo histórico nos conduziu à situação insustentável em que nos encontramos. Todos os recursos, e todos os meios, são usados para salvar as economias de desperdicio, do que resulta que já busquemos recursos em regiões remotas, no fundo dos mares, sob as calotas polares: Destruimos as últimas reservas florestais,  provocamos a desertificação acelerada, o aquecimnto global, a extinção de uma infinidade de espécies, a morte pela fome de cerca de 50 mil pessoas por dia. Queremos mesmo manter esse estado de coisas? Queremos continuar confiando nesse tipo de “desenvolvimento”? E não se diga que “não há o que fazer”, porque sim, há solução. E justamente impedir que se divulgue a consciência de que há solução se constitui num dos maiores crimes de lesa humanidade cometidos atualmente.
O tão intensamente promovido desenvolvimento sustentável não chega a ser a solução, uma vez que se atem a propor a diminuição dos efeitos, sem ir ao âmago das causas. As práticas do desenvolvimento sustentável se atêm a uma convivência mais respeitosa com o meio ambiente, por parte das pessoas e das empresas, minorando os efeitos da destruição ambiental, mas nem siquer mencionando as causas dessa destruição, ou mesmo negando seus efeitos, como no caso do aquecimento global, enquanto há um bloqueio, por parte da mídia e da maior parte da academocracia,  da conscientização das causas, ou da causa, que é a obsessão  pelo crescimento econômico, que continua dominante na sociedade atual, aumentanto sempre tanto o poder econômico-financeiro como a desgraça social e ambiental por ele causada.
Uma vez conscientizada a causa, torna-se óbvia a necessidade de deter essa corrida insana pela apropriação de recursos naturais e humanos para alimentar o crescimento dum poder concentrador, e portanto também excludente. Desde 1977, um estudo publicado pelas Nações Unidas e elaborado sob a liderança do Prêmio Nobel Wassily Leontief, já demonstrara que há recursos no mundo para manter toda a sua população com padrões satisfatórios de vida, desde que distribuidos equitativamente. O problema não é portanto escassez de recursos, mas sua má distribuição, pois a maioria dos recursos é sifonada para alimentar economias de desperdício, enquanto nos países seus exportadores prevalece a miséria e a fome. É a consciência disso que impulsiona a idéia do desenvolvimento generalizável, isto é, o que promova uma convergência para padrões médios, que acomodem toda a população da Terra. Essa é não só uma solução, mas a única solução possível.


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quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Guatemala

O riquíssimo artesanato guatemalteco, vendido a preços muito baixos nos mercados populares, especialmete em Chichicastenango, para reaparecer a altos preços nas lojas da América do Norte e da Europa.

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Neurocirurgia e cérebro saudável


Entrevista com o Dr. Paulo Niemeyer Filho – neurocirurgião que, recentemente, devolveu ao Maestro João Carlos Martins os movimentos no braço e mão esquerda, através de cirurgia no cérebro. Ele nos relembra os cuidados que devemos ter para manter uma mente sã, em entrevista à revista PODER.

PODER: O que fazer para melhorar o cérebro?

Resposta: Você tem de tratar do espírito. Precisa estar feliz, de bem com a vida, fazer exercício. Se tu estás deprimido, reclamando de tudo, com a autoestima baixa, a primeira coisa que acontece é a memória ir embora; 90% das queixas de falta de memória são por depressão, desencanto, desestímulo. Para o cérebro funcionar melhor, você tem de ter alegria. Acordar de manhã e ter desejo de fazer alguma coisa, ter prazer no que está fazendo e ter a autoestima no ponto.

PODER: Cabeça tem a ver com alma?

PN: Eu acredito que a alma está na cabeça. Quando um doente está com morte cerebral, você tem a impressão de que ele já está sem alma... Isso não dá para explicar, o coração está batendo, mas ele não está mais vivo. Isto comprova que os sentimentos se originam no cérebro e não no coração.

PODER: Você acha que a vida moderna atrapalha?

PN: Não, eu acho a vida moderna uma maravilha. A vida na Idade Média era um horror. As pessoas morriam de doenças que hoje são banais de ser tratadas. O sofrimento era muito maior. As pessoas morriam em casa com dor. Hoje existem remédios fortíssimos, ninguém mais tem dor.

PODER: Existe algum inimigo do bom funcionamento do cérebro? 

PN: Todo exagero.

Na bebida, nas drogas, na comida, no mau humor, nas reclamações da vida, nos sonhos, na arrogância, etc.
O cérebro tem de ser bem tratado como o corpo. Uma coisa depende da outra.
É muito difícil um cérebro muito bom num corpo muito maltratado, e vice-versa.

PODER: Qual a evolução que você imagina para a neurocirurgia?

PN: Até agora a gente trata das deformidades que a doença causa, mas acho que vamos entrar numa fase de reparação do funcionamento cerebral, cirurgia genética, que serão cirurgias com introdução de cateter e colocação de partículas de nanotecnologia, em que você vai entrar na célula com partículas que carregam dentro delas um remédio que vai matar aquela célula doente que te faz infeliz. Daqui a 50 anos ninguém mais vai precisar abrir a cabeça.

PODER: Você acha que nós somos a última geração que vai envelhecer?

PN: Acho que vamos morrer igual, mas vamos envelhecer menos. As pessoas irão bem até morrer. É isso que a gente espera. Ninguém quer a decadência da velhice. Se você puder ir bem mentalmente, com saúde e bom aspecto, até o dia da morte, será uma maravilha.

PODER: Hoje a gente lida com o tempo de uma forma completamente diferente. Você acha que isso muda o funcionamento cerebral das pessoas?

PN: O cérebro vai se adaptando aos estímulos que recebe, e às necessidades. Você vê pais reclamando que os filhos não saem da internet, mas eles têm de fazer isso porque o cérebro hoje vai funcionar nessa rapidez. Ele tem de entrar nesse clique, porque senão vai ficar para trás. Isso faz parte do mundo em que a gente vive e o cérebro vai correndo atrás, se adaptando.

PODER: Você acredita em Deus?

PN: Geralmente depois de dez horas de cirurgia, aquele estresse, aquela adrenalina toda, quando acabamos de operar, vamos até a família e dizemos: "Ele está salvo". Aí, a família olha pra você e diz:"Graças a Deus!". Então, a gente acredita que não fomos apenas nós, que existe algo mais, independente de religião.


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A recuperação do rico

Paul Krugman

Poucos dias atrás, o "New York Times" publicou uma reportagem sobre uma sociedade que está sendo minada pela extrema desigualdade. Essa sociedade alega recompensar os melhores e mais brilhantes, independentemente do histórico familiar. Na prática, entretanto, os filhos dos ricos se beneficiam de oportunidades e contatos não disponíveis para os filhos de classe média e trabalhadora. E ficou claro a partir do artigo que a desigualdade entre a ideologia de meritocracia da sociedade e sua realidade cada vez mais oligárquica está surtindo um efeito profundamente desmoralizante. 

A reportagem ilustrou de modo sucinto o motivo da extrema desigualdade ser destrutiva, por que soam vazias as alegações de que a desigualdade de renda não importa desde que haja igualdade de oportunidade. Se os ricos são tão mais ricos do que o restante a ponto de viverem em um universo social e material diferente, esse simples fato transforma em tolice qualquer noção de oportunidade igual. 

A propósito, de que sociedade estamos falando? A resposta é: a Escola de Administração e Negócios de Harvard, uma instituição de elite, mas que agora é caracterizada por profunda divisão interna entre estudantes comuns e estudantes de famílias ricas. 

O fato, é claro, é que o que acontece na escola também acontece nos Estados Unidos --um fato apontado pelos dados mais recentes sobre as rendas dos contribuintes.

Os dados em questão foram compilados ao longo da última década pelos economistas Thomas Pikett e Emmanuel Saez, que usaram números da Receita Federal para estimar a concentração de renda nos Estados Unidos. Segundo a estimativa deles, as fatias superiores de renda receberam um golpe durante a Grande Recessão, à medida que coisas como ganhos de capital e bônus de Wall Street secaram temporariamente. Mas os ricos se recuperaram, a ponto de 95% dos ganhos da recuperação econômica desde 2009 terem ido para o famoso 1%. Na verdade, mais de 60% dos ganhos foram destinados ao 0,1% superior, pessoas com rendas anuais superiores a US$ 1,9 milhão. 

Basicamente, enquanto a grande maioria dos americanos ainda vive em uma economia deprimida, os ricos recuperaram quase todas as suas perdas e estão avançando ainda mais. 

Um aparte: esses números deveriam (mas provavelmente não vão) finalmente matar as alegações de que a crescente desigualdade envolve apenas os mais bem educados se saindo melhor do que aqueles com menor formação. Apenas uma pequena fração daqueles com formação universitária chega ao círculo encantado do 1%. Enquanto isso, muitos, até mesmo a maioria, dos jovens com ensino superior estão tendo muitas dificuldades. Eles têm diplomas, frequentemente obtidos por alto endividamento, mas muitos permanecem desempregados ou subempregados, enquanto muitos se veem em empregos que não utilizam sua educação cara. O sujeito com diploma universitário servindo café no Starbucks é um clichê, mas ele reflete uma situação muito real. 

E o que está provocando esses ganhos imensos de renda no topo? Há um debate intenso a respeito, com alguns economistas ainda alegando que rendas incrivelmente altas refletem contribuições comparavelmente incríveis à economia. Eu acho que vale notar que grande parte dessas rendas superaltas vêm do setor financeiro, que é, como você pode lembrar, o setor que os contribuintes tiveram que resgatar após seu colapso iminente ter ameaçado levar consigo toda a economia. 

De qualquer modo, seja lá o que estiver causando essa crescente concentração de renda no topo, o efeito dessa concentração está minando todos os valores que definem os Estados Unidos. Ano a ano, nós estamos nos afastando de nossos ideais. Privilégio herdado está acabando com a igualdade de oportunidade; o poder do dinheiro está acabando com a eficácia da democracia. 

E o que pode ser feito? Por ora, o tipo de transformação que ocorreu sob o New Deal --uma transformação que criou uma sociedade de classe média, não apenas por meio de programas de governo, mas aumentando enormemente o poder de barganha dos trabalhadores-- parece politicamente fora de alcance. Mas isso não significa que devemos desistir de passos menores, iniciativas que nivelem ao menos um pouco o campo de jogo. 

Veja, por exemplo, a proposta de Bill de Blasio, que ficou em primeiro nas primárias democratas de terça-feira e provavelmente será o próximo prefeito de Nova York, de fornecer ensino pré-escolar universal, pago com uma pequena sobretaxa sobre aqueles com rendas acima de US$ 500 mil. Os suspeitos habituais, é claro, estão gritando e falando sobre seus sentimentos feridos; eles têm feito muito disso nos últimos anos, mesmo quando fazem papéis de bandidos. Mas certamente isso é exatamente o tipo de coisa que deveríamos fazer: taxando a riqueza dos cada vez mais ricos, ao menos um pouco, para expandir as oportunidades para os filhos dos menos afortunados. 

Alguns comentaristas já estão sugerindo que a ascensão inesperada de De Blasio é o início de um novo populismo econômico, que sacudirá todo nosso sistema político. Isso parece prematuro, mas espero que estejam certos. Pois a desigualdade extrema ainda está crescendo --e está envenenando nossa sociedade. 

(Tradutor: George El Khouri Andolfato.Noticias.uol.com.br)

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Física indiana denuncia ditadura da indústria alimentícia

A ativista indiana Vandana Shiva, 59, que veio ao Brasil para fazer palestras sobre temas da Rio+20, durante o 3º Encontro Internacional de Agroecologia, em Botucatu, Estado de São Paulo.

Considerada a inimiga número um da indústria de transgênicos, a física e ativista indiana Vandana Shiva afirma que há uma ditadura do alimento, onde poucas e grandes corporações controlam toda a cadeia produtiva. E dá nome aos bois: Nestlé, Cargil, Monsanto, Pepsico e Walmart.
"Essas empresas querem se apropriar da alimentação humana e da evolução das sementes, que são um patrimônio da humanidade e resultado de milhões de anos de evolução das espécies", diz.
Crítica feroz à biopirataria, Shiva ressalta que a única maneira de combater o controle sobre a alimentação é o ativismo individual na hora de consumir produtos mais saudáveis e de melhor qualidade.

É possível alimentar o planeta sem usar transgênicos?
O único modo de alimentar o mundo é livrando-se das sementes transgênicas. Essas sementes não produzem alimentos, mas produtos industrializados. Como isso poderia ser a solução para fome? Só estão criando mais controle sobre as sementes. Desde 1995, quando as corporações obtiveram o direito de controlar as sementes, 284 mil fazendeiros cometeram suicídio na Índia. Nós perdemos 15 milhões de agricultores por causa de um design de produção agrária criado para acabar com a agricultura familiar.

Como mudar a alimentação do modelo agroindustrial para outro baseado na produção familiar e na distribuição local?
As pequenas fazendas produzem 80% dos alimentos comidos no mundo. As indústrias produzem commodities. Apenas 10% dos grãos de milho e soja são comidos por pessoas; o resto é 'comido' pelos carros, como biocombustíveis, e por animais. É possível elevar esses 80% para 100% protegendo a biodiversidade, a terra, os fazendeiros e a saúde pública. É apenas por meio da agroecologia que a produtividade agrícola pode aumentar.

Como as grandes corporações dominam a cadeia mundial de alimentos?
Se você olha para as quatro faces que determinam nossa comida, são todas controladas por grandes corporações. As sementes são controladas pela Monsanto por meio dos transgênicos; o comércio internacional é controlado por cinco empresas gigantes; o processamento é controlado por outras cinco, como a Nestlé e a PepsiCo; e o varejo está nas mãos de gigantes como o Walmart, que gosta de tirar o varejo dos pequenos comércios comunitários e com conexões muito diretas entre os produtores de comida e os consumidores. São correntes longas e invisíveis, onde 50% dos alimentos são perdidos.
Temos sim uma ditadura do alimento. A razão que eu viajei todo esse caminho até o Brasil é porque eu sou totalmente a favor da liberdade alimentícia, porque uma ditadura do alimento não é só uma ditadura. É o fim da vida.

Como as corporações chegaram a esse domínio?
Infelizmente, o chamado livre comércio trouxe a liberdade para as corporações, mas não para as pessoas. As corporações estão escrevendo as regras e se tornando os governantes.
Os direitos intelectuais acordados entre as organizações mundiais foram escritos pela Monsanto. Para eles, o problema era que os fazendeiros estavam guardando as sementes. E a solução que ofereceram foi dizer que guardar as sementes agora é um crime de propriedade intelectual. É isso o que dizem as regras da OMC. A Índia, o Brasil, a América Latina e a África deveriam dizer: 'Você não pode patentear a vida porque a vida não foi inventada. Pare com a biopirataria'.
Até agora, a revisão dessas regras não foi permitida, o que mostra que essas corporações ditam as regras. E não é apenas na OMC. A Monsanto escreveu o ato de proteção para o orçamento nos EUA. O vice-presidente da Cargill foi designado para escrever a lei de comércio e agricultura dos EUA.

É possível modificar esse cenário?
A única maneira de reverter essa situação é cada pessoa fazer seu papel de recuperar a liberdade e a democracia do alimento. Afinal, cada um de nós come duas ou três vezes ao dia. E o que nós comemos decide quem somos, se nosso cérebro está funcionando corretamente, ou nosso metabolismo está saudável ou, se por conta de micronutrientes, estamos nos tornando obesos. Isso afeta todo mundo: os mais pobres porque lhes foi negado o direito à comida; mas até os que podem comer porque não estão comendo comida. Chamo isso de anticomida, porque a comida deveria nos nutrir. A comida mortal que as corporações estão trazendo para nós destrói a capacidade da comida de nos nutrir e no lugar disso está nos causando doenças.
Cada um de nós deve se tornar um forte ativista da liberdade da comida e das sementes no nosso dia a dia. O que significa que temos que apoiar mais os fazendeiros e a agroecologia. Devemos ser comprometidos com a alimentação saudável.

Qual a importância do Brasil nesse jogo?
O Brasil tem um papel muito importante. De um lado, está uma agricultura altamente destrutiva e irresponsável, mantida pelas corporações, levando transgênicos, produtos químicos e piorando a fome. Do outro lado, está o modelo agroecológico, caracterizado pela diversidade, conhecimento popular, o melhor da ciência, e levando efetivamente comida às pessoas. Essa disputa está ocorrendo justamente aqui, no Brasil.
Provavelmente, o Brasil tem a maior proporção de diversidade de alimentos em sua agricultura. No entanto, a maior parte não é usada para a alimentação humana. Por exemplo, as plantações de cana-de-açúcar e soja vão para a alimentação de animais e para fabricação de combustíveis.
O Brasil é parte do que eles chamam de Brics. Eu não gosto de 'tijolos'. Eu prefiro plantas. Mas é um forte jogador na cena global, e os jogadores vão decidir como os outros jogam.

Qual o papel da sociedade urbana em relação à agricultura familiar?
É muito feliz. Não porque eu acredito que as áreas urbanas têm mais riqueza e mais poder, mas porque, por terem mais riqueza, têm mais responsabilidade. E porque eles controlam a tomada de decisões, tanto em termos de governamentais como a sua própria atitude em termos de consumo. Se eles mudassem sua postura de consumo para longe das corporações, comprando, sim, alimentos dos pequenos produtores, eles ajudariam não apenas o agricultor familiar, mas também ajudariam a Terra e seus próprios corpos.
Recentemente o presidente da Nestlé afirmou que é necessário privatizar o fornecimento da água.

Quais as consequências desse processo?
Tudo que é essencial à vida desde o começo da história, em todas as culturas, tem sido reconhecido como pertencente à sociedade. E isso inclui a semente, porque a semente é a base da comida, inclui a água porque água é vida. E são esses recursos que essas corporações gigantes querem enclausurar. Essas são as novas inclusões comerciais. Assim como na Inglaterra, eles enclausuraram a terra, e a tiraram dos camponeses para terem a revolução industrial.
Hoje, as corporações gigantes estão assumindo os bens comuns que são as sementes, a biodiversidade, a água. Quando a Nestlé diz que é necessário privatizar a água, eles estão, obviamente, pensando na necessidade de aumentar os lucros deles. Eles não estão pensando na necessidade dos aquíferos de serem sustentados e recarregados, porque corporações somente podem construir uma economia extrativa. Se eles privatizam a água, eles vão somente tirar a água para eles, o que significa que as comunidades locais são deixadas sem água. Então é um assalto.
As Nações Unidas têm de reconhecer que o direito à água é um direito humano. A Coca-Cola agora quer entrar no meu vale, um vale lindo no Himalaia, chamado Dune Valey. Em maio nós iniciamos uma campanha porque a privatização da água por essas empresas de engarrafamento significa, primeiro, que o direito universal à água é destruído. O aquífero, que pertence a todos, está agora engarrafado numa garrafa de 10 rupis que pode é acessível só aos ricos. Os pobres bebem apenas água contaminada.
A segunda coisa é que ela destrói água, e eu não sei por quanto tempo essa mineração poderá aguentar. A terceira é que ela polui. Sobram poucas fontes de águas puras, e, se eles realmente se importassem, deveriam limpar o pouco que sobra, ao invés de roubar o que resta limpo. Isto é roubo de água e, portanto, um crime contra a humanidade.
Essa dependência da Coca-Cola é um dos vícios da vida moderna. Nós temos muito mais bebidas saudáveis.
Na Índia, começamos uma campanha para as avós ensinassem aos seus netos as bebidas geladas que elas costumavam fazer. Somos um país tropical, sabemos como transformar qualquer fruta em uma bebida saborosa: um suco de manga crua, que é ótimo para prevenir insolação, uma mistura maravilhosa de sete grãos, que é como uma refeição completa e, se tomada no café da manhã, você não precisa de mais nada. As bebidas venenosas que são vendidas pela Nestlé e pela Coca-Cola roubam o nosso dinheiro, a nossa água e a nossa cultura.

Qual é a forma alternativa à globalização?
Originalmente, o livre comércio deveria reconhecer a liberdade de todas as espécies e por isso não destruiria nenhuma espécie nem ecossistema. Originalmente, o livre comércio reconheceria os direitos dos camponeses e dos povos indígenas e, por isso, não iria cortar as raízes. Reconheceria também os direitos dos pequenos agricultores familiares e iria cuidar para que existam preços justos, ao invés de tentar debilitar o preço por meio de dumping e jogando fora os produtos.
Um verdadeiro livre comércio seria a liberdade para as pessoas e não a liberdade para as corporações. O que nós temos agora é uma corporatização global com uma negligência total, uma destruição negligente e desatenta. O que precisamos é uma consciência livre que esteja profundamente ciente de nossa interconexão com outras espécies, outras culturas e com toda a humanidade. Temos que ser conscientes do dano que fazemos aos outros. Dessa forma, não vamos incrementar o tamanho de nossa pisada ecológica, mas vamos a reduzi-la.
E, na alimentação, a única forma em que você pode reduzir sua pisada é de mudar de agroindústria para agroecologia, mudar da distribuição global para distribuição local, mudar de um sistema violento, que depende do governo corporativo, para um sistema pacífico, que depende da comunidade e da solidariedade. No momento em que mudamos para isso, a pisada se reduz. Podemos ir do industrial e global para ecológico e local.

Como acelerar o processo de alinhamento entre os vários movimentos para um estilo de vida mais sustentável?
Agroecologistas, camponeses e agricultores familiares são, na minha opinião, os maiores, protetores do planeta. É o momento de os movimentos ecológicos perceberem que os verdadeiros ambientalistas são os agricultores, que realmente reconstroem o solo, que fazem o cultivo de uma forma que os besouros não sejam mortos, que protegem a água.
E o movimento pela saúde tem que perceber que os agricultores são os médicos, que fazer crescer comida saudável é a melhor contribuição que podemos fazer. No momento em que fazemos essas conexões, existe uma nova vida, porque a vida cresce por meio de inter-relações.


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